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Embaixador de Portugal profere conferência em Salvador

O embaixador de Portugal em Brasil, Drº João Salgueiro, esteve em Salvador, na última quinta feira (17), para proferir conferência no Hospital Português, sobre o tema “Portugal e o Brasil no Mundo Contemporâneo - uma perspectiva Lusófona”, o encontro foi realizado, por ocasião do início de atividades acadêmicas da Universidade Lusófona em Salvador.

Em seu discurso de abertura o Embaixador pontuou que “É uma honra estar aqui hoje, nesta instituição portuguesa criada na Bahia há mais de cento e cinqüenta anos. Para mais, quando o objetivo é o de assinalar o início de atividades acadêmicas em Salvador de um Grupo universitário português, através da fusão com uma instituição acadêmica local, criada e dirigida há anos por um cidadão português e sua Mulher, muito ativos no âmbito da comunidade portuguesa local e especialmente atentos à evolução internacional do sistema acadêmico e sua atualização”. João Salgueiro falou ainda sobre a relação Brasil X Portugal. Acompanhe discurso na integra.

Minhas Senhoras e meus Senhores.
Os desenvolvimentos internacionais dos anos mais recentes têm tido um efeito privilegiado nas situações internacionais de Portugal e do Brasil. O Brasil tem-se vindo a afirmar como potência de destaque, com um ritmo de desenvolvimento que o coloca entre as principais economias mundiais, em muito tal se devendo a uma estrutura financeira cuja solidez pôde bem ser posta à prova durante a recente crise internacional. Seguro e afirmativo, o Brasil tem vindo, também, a assumir uma relevante postura a nível da política mundial, que se manifesta tanto na assunção de uma profunda solidariedade e cooperação com países em situação de crise e de tragédia, como por uma intervenção responsável em questões e conflitos que preocupam a opinião pública e responsáveis políticos à escala global.

O Brasil afirma-se, assim, como um motor, econômico e político internacional, capaz de alavancar o desenvolvimento não só da América do Sul, onde geograficamente se insere, mas de outras regiões do globo, onde se torna uma referência em questões de relevância mundial, como as ambientais, ou de progresso social.

Também empresas brasileiras com projeção mundial, como a Odebrecht, precisamente originária da Bahia, têm oferecido, a par da sua atividade econômica, um modelar exemplo de desenvolvimento humano e social, como tem sido o caso, e apenas nomeadamente, em diversos países africanos de Língua Portuguesa.

Toda a atividade brasileira se tem também sabido enquadrar na estrutura de cooperação internacional, de que a Organização das Nações Unidas é o exemplo máximo, o que sem dúvida faz merecer ao Brasil a atribuição de um papel de destaque nesse fórum, que Portugal sinceramente deseja que ele proximamente venha a assumir. Tal destaque não significará, aliás, apenas uma via de afirmação para o Brasil, mas para todos os outros países de Língua Portuguesa, bem como para o próprio estatuto da Língua Portuguesa no Mundo.

Quanto a Portugal, este soube aproveitar, nomeadamente, o enquadramento extremamente positivo que lhe proporcionou a sua adesão à atual União Européia, que se tem vindo a afirmar como um particularmente bem sucedido bloco econômico, político e de cooperação à escala mundial. Afirmando as suas raízes multisseculares, Portugal soube, assim, desenvolver-se, modernizar-se e aperfeiçoar-se, fortalecendo as suas estruturas democráticas e oferecendo aos seus cidadãos, e aos inúmeros estrangeiros que buscam o nosso país, uma oportunidade de progresso e realização social.

Apesar de inserido num esquema de cooperação baseado no continente europeu, onde geograficamente se situa, Portugal não perdeu, contudo, as suas ligações a outras partes do Mundo a que os destinos da História o ligaram no passado. Na África, na Ásia, na América do Sul, continuaram a existir focos exponenciais para a nossa política externa, que impeliram Portugal a aprofundar e desenvolver fortes laços de cooperação que crescentemente o ligam e aproximam desses povos, países e regiões.

No que respeita ao Brasil, embora aparentemente os dois países possam, em certos momentos, ter parecido seguirem rumos diversos, sempre soubemos descobrir vias de reencontro, conseguindo, cá e lá, adaptarmo-nos às novas circunstâncias internacionais e do outro, transformando aparentes obstáculos em caminhos de aproximação, concebendo sempre novas fórmulas de relacionamento.

Contribuindo para isso, estarão, porventura, alguns fatores, por vezes, talvez, inconscientes, mas que nos unem de forma muito especial: uma História partilhada durante séculos; um fluxo populacional nos dois sentidos, que se mantém, de várias formas, até aos nossos dias; um acervo cultural muito próximo; e, principalmente, uma Língua comum.

Minhas Senhoras e meus Senhores
Saber valorizar e apreciar esses fatores, o que foi o passado e o que é o nosso presente, afigura-se como fundamental para prepararmos o nosso futuro. Para além das instâncias oficiais, muitos intelectuais brasileiros e portugueses têm, assim, sido um instrumento fundamental no desenvolvimento das nossas relações e na afirmação dos laços que nos unem. Escritores, acadêmicos, músicos, poetas, jornalistas, bastantes deles, inclusive - tem de se dizer - baianos, têm tido um papel crucial nesse trabalho de recuperação de raízes comuns e de abertura de caminhos futuros entre Portugal e o Brasil, estendendo o nosso relacionamento ao campo essencial do Espírito e da Cultura.

Outra área que se tem revelado especialmente relevante e promissora no nosso relacionamento é a da cooperação econômica. Efetivamente, Portugal tem, desde há muito, vindo a investir no Brasil em sectores fundamentais, como o da hotelaria, da construção, das telecomunicações, o das energias, inclusive renováveis, o da exploração petrolífera, entre outros, estabelecendo parecerias estratégica cuja importância se projeta, em muitos casos, para além dos nossos próprios países.

Por outro lado, uma parte importante dessa relação está a ser preenchida pelos relevantes investimentos brasileiros feitos em Portugal, de que o da Embraero, no sector aeronáutico, é apenas um exemplo. Como disse o Presidente Lula da Silva na recente Cimeira Luso-Brasileira realizada em Lisboa, é altura de o Brasil investir em Portugal, em resposta a todo o investimento produtivo português feito no Brasil.

Ao referir os grandes investidores brasileiros em Portugal, é justo fazer-se referência ao papel quase pioneiro da Odebrecht, que atrás já mencionei, que se estabeleceu há décadas no nosso país com resultados amplamente bem sucedidos, tendo sido responsável por obras de infra-estrutura essenciais para o desenvolvimento de Portugal, algumas de sua iniciativa, como a da Ponte Vasco da Gama, que atravessa o Rio Tejo, a maior da Europa.

Como referido pelo nosso atual Presidente da República, Professor Aníbal Cavaco Silva, ao fundador daquele Grupo, Doutor Norberto Odebrecht, trata-se de uma empresa brasileira que pode servir de exemplo, modelo e lição para empresários e empresas portugueses, nomeadamente pela sua perspectiva humana, social e cultural do desenvolvimento econômico, contribuindo, inclusive, de forma relevante, para o incentivo de estudos acadêmicos e científicos sobre o patrimônio histórico e cultural comum de Portugal e do Brasil.Mas tudo isto mostra apenas, contudo, o muito que pode ainda ser feito nesta área no que respeita ao nosso potencial de cooperação.

Minhas Senhoras e meus Senhores
Na realidade, a força de atração entre Portugal e o Brasil, aquilo que alimenta as suas relações, não resulta apenas dos seus laços bilaterais. Pelo contrário, o relacionamento entre Portugal e o Brasil é grandemente influenciado pelas ligações que ambos têm com os restantes países de Língua oficial Portuguesa, que se espalham, principalmente, pela África, mas também pela Ásia. Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe situam-se na África, Timor - Leste no Sudeste Asiático. A Região Administrativa Especial de Macau, onde o Português partilha com o Mandarim o estatuto de língua oficial, pertence à República Popular da China.

São cerca de 200 milhões de pessoas que têm o Português como língua materna, o que torna o nosso idioma um dos mais falados no Mundo, principalmente entre as línguas ocidentais.

O potencial multifacetado dessa rede multipolar de centros de presença da Língua Portuguesa no Mundo foi desde cedo compreendida por portugueses e brasileiros, dos quais se destacou, nomeadamente, o Embaixador do Brasil em Lisboa, Aparecido de Oliveira, o que conduziu, em 1996, à criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP.

Nesse contexto, o objetivo da CPLP é, por um lado, o de consolidar e promover o uso da Língua Portuguesa a nível internacional, e, por outro o de criar e de desenvolver canais de cooperação, num âmbito cada vez mais alargado de sectores, em benefício, não só, dos seus Membros, mas das próprias e diversificadas regiões onde se inserem.

Articulando pontos de vista e perspectivas de várias origens geográficas e culturais, mas unidos por uma Língua comum, a CPLP visa também dar o seu contributo para a resolução de problemas globais, afirmando-se como um parceiro útil e válido de diálogo da cena mundial.

Naturalmente, a ascensão de um dos seus Membros, neste caso o Brasil, no panorama internacional, nomeadamente ocupando lugares cimeiros no âmbito da Organização das Nações Unidas, em muito ajudará esses propósitos.

Aliás, ao longo da existência da CPLP, sempre se verificou que da assunção por um dos seus Membros de uma posição de destaque de âmbito internacional veio a resultar, geralmente, uma maior atenção dada a um ou todos os outros Membros nesse contexto. Lembremo-nos que foi por iniciativa portuguesa, durante a Presidência Portuguesa da União Européia, em 2007, que foi instituída, com periodicidade anual, a Cimeira União Européia - Brasil, que colocou o Brasil entre as principais prioridades do mapa político europeu.   

Aliás, sinal do valor efetivo desse bloco de Língua Portuguesa é o do estabelecimento por uma potência econômica como a China, a partir de Macau, do “Fórum para a Cooperação Econômica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, um mecanismo da cooperação de iniciativa oficial sem caráter político, que tem como tema chave a cooperação e o desenvolvimento econômico e tem por objetivo reforçar a cooperação e o intercâmbio econômico entre a República Popular da China e os Países de Língua Portuguesa, dinamizar o papel de Macau como plataforma de ligação a esses países e promover o desenvolvimento dos laços entre a República Popular da China, Macau e os Países de Língua Portuguesa.

Outra área de especial importância como objeto de cooperação no âmbito da Língua Portuguesa é a inter-municipal, que salienta o papel das cidades e do seu relacionamento como fator de desenvolvimento humano e social. Gostaria, assim, de citar a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa – UCCLA, entidade criada há anos, em Lisboa, e cuja presidência cabe presentemente a Salvador, cidade onde há pouco tempo se reuniu.

Minhas Senhoras e meus Senhores
Estas últimas reflexões conduzem-me ao tema que aqui hoje nos traz, e que de não menos importância se reveste no âmbito das relações luso-brasileiras e no âmbito da lusofonia. Trata-se do intercâmbio na área acadêmica.

A Universidade reveste-se, nos dias de hoje, talvez mais do que nunca, de uma importância fundamental para o desenvolvimento humano. Os estudos universitários não podem, assim, ser considerados como meramente passivos, uma simples recolha ou absorção de conhecimentos. A Universidade, pelo contrário, põe o estudante em contacto com o Mundo, estimula-o a refletir sobre o que o cerca, contrapondo-o a outros saberes, sensibilidades e conhecimentos oriundos de outros grupos sociais, países, regiões e vertentes do conhecimento, fazendo-o aprender com os outros e enriquecer-se espiritualmente a si mesmo, para depois poder dar aos outros o seu contributo solidário.
Ao estudante universitário cabe-lhe refletir sobre os problemas da sua sociedade, do seu grupo comunitário, do seu país e do Mundo. Os estudantes, os acadêmicos, são, desse modo, o futuro e a esperança dos seus países e das suas sociedades.
Ao universitário não lhe bastam respostas já dadas ou conclusões assumidas, que não conduzem ao aprofundamento da verdade e ao melhor conhecimento da realidade. A sua tarefa nunca está terminada, podendo ser sempre aperfeiçoada, tanto como é interminável o fluxo contínuo do nosso raciocinar em correlação com o Mundo e com os que nos cercam.

Nesse âmbito, torna-se imprescindível a sua inserção numa rede de conhecimento cada vez mais alargada, através, naturalmente, dos modernos meios de comunicação, mas também, e muito, pelas portas abertas pelo intercâmbio, inter-universitário e internacional.

Para o relacionamento que pretendemos entre Portugal e o Brasil, é, pois, imprescindível que este tipo de cooperação se consolide e fortaleça entre estudantes, acadêmicos e universidades dos nossos dois países.

Minhas Senhoras e meus Senhores
 Através do início das atividades acadêmicas em Salvador, e na Bahia, do Grupo universitário português Lusófona, tem hoje lugar um importante avanço no âmbito deste tipo de intercâmbio entre Portugal e o Brasil.

O Grupo Lusófona é o maior grupo de ensino de Língua Portuguesa, que integra onze instituições de ensino superior em Portugal, seis instituições Universitárias noutros países de Língua Portuguesa, para além de catorze escolas não superiores em Portugal e no Brasil. O seu principal objectivo é a promoção da ciência, da cultura e do desenvolvimento económico em todos os países onde se fala a Língua Portuguesa.

 Através da relação e posterior fusão com a Faculdade de Ciências Gerenciais da Bahia - UNICENID, fruto da criatividade e trabalho do cidadão português Professor Ivan da Silva Barroso e de sua Mulher, Professora Eugênia Barroso, a Lusófona alarga agora a sua ação à Bahia, após estar já presente, no Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

 A escolha da Bahia para o prosseguimento da atividade da Lusófona afigura-se como um passo lógico a ser dado. Na Bahia teve lugar o primeiro contacto de Portugal com o Brasil, em 1500; na Bahia foi construída, em 1549, a primeira capital do Brasil, Salvador; na Bahia foi criado o primeiro Tribunal de segunda instância das Américas, que no ano passado comemorou 400 anos; em Salvador foi criada, em 1808, a primeira instituição de ensino superior público do Brasil, a atual Faculdade de Medicina da Bahia.

Ao longo da sua História, a Bahia soube dar ao Brasil grandes intelectuais, como Gregório de Matos. São também baianos alguns dos maiores juristas brasileiros, como Ruy Barbosa, Teixeira de Freitas e Orlando Gomes.
Ao longo dos séculos, o povo baiano soube criar uma cultura muito própria e rica que, pelas suas diversas influências, tanto se aproxima do que é o espírito e a imagem da lusofonia, dispersos pelo Mundo.

Dessa cultura saíram e saem grandes artistas, que tanto contribuem para divulgar o Brasil – e a Lusofonia – no exterior. A população baiana é jovem, inteligente, sensível e generosa e sem dúvida saberá aproveitar esta oportunidade de estabelecer novos laços com o Mundo, principalmente com o Mundo que fala Português.

Gostaria, assim, de terminar, dando os meus parabéns aos responsáveis da Universidade Lusófona e da UNICENID pela cerimônia que tenho hoje o gosto de aqui testemunhar, desejando as maiores felicidades ao vosso projeto.




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