Juliana Gontijo - Diário do Comércio
A energia eólica no Estado deve demandar nos próximos cinco anos investimentos superiores a R$ 20 bilhões, segundo estimativa do presidente do Conselho de Indústria e Energia da Associação Comercial de Minas (AC Minas), Ailton Ricaldoni Lobo. "Sei que há vários grupos pesquisando áreas, fazendo medições dos ventos complementares para poder identificar as melhores localidades para a implantação de projetos", disse.
De acordo com ele, o valor foi projetado considerando dados do mapa eólico, divulgado em maio deste ano pelo governo mineiro. "Estou me baseando em 10% do potencial existente que seria construído nos próximos cinco, seis anos, o que é perfeitamente factível, já estamos sentindo a sinalização de empreendedores no Estado", observou.
Lobo, que participou da segunda edição do Seminário de Energias Renováveis (Semer 2010), no Ouro Minas Palace Hotel, localizado no bairro Ipiranga, região Nordeste de Belo Horizonte, ressaltou que as inversões seriam capazes de viabilizar a implantação de parques eólicos num total de 3,5 mil a 4 mil megawatts.
Belo Monte - Conforme dados do Atlas Eólico de Minas Gerais, o potencial do Estado chega a 40 gigawatts (GW), a uma altura de 100 metros do solo, o que garante capacidade 3,5 vezes maior que a da usina hidrelétrica de Belo Monte, que deve ser construída no Pará (11,2 GW). O potencial do Estado é 2,7 vezes superior ao da usina da Itaipu.
O mapeamento traz dados sobre a circulação geral de ventos no Estado e identifica os locais promissores para a implantação de empreendimentos de geração de energia eólica.
Durante a abertura dos trabalhos do seminário, o diretor de Desenvolvimento de Novos Negócios da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), José Carlos de Mattos, que representou o presidente da estatal mineira, Djalma Bastos de Morais, ressaltou que a companhia foi a primeira empresa do país a operar usinas eólicas, com a construção da Usina Morro do Camelinho, no município de Gouvêa, região Central, em 1994.
Essa usina, que também foi a primeira a fornecer energia para o sistema elétrico nacional, tem quatro geradores eólicos com 250 KW de potência cada uma. Atualmente, funciona parcialmente com três máquinas.
Segundo dados do atlas, realizado pela consultoria Camargo Shubert, a região mineira com maior potencial eólico é o Norte de Minas Gerais, ao longo da Serra do Espinhaço, a partir de Sete Lagoas, na região Central, rumo ao Norte, onde os melhores ventos para o aproveitamento da matriz.
Cemig - No ano passado, a Cemig, em parceria com a empresa IMPSA, líder latino-americana em energia renováveis, investiu na aquisição de três parques eólicos no Ceará, com capacidade instalada de 99,6 MW. Em agosto passado começou a operação do primeiro, o Parque Eólico de Praias de Parajuru, na cidade de Beberibe, com extensão de 325 hectares e 19 aerogeradores, totalizando 28,5 MW de potência instalada.
As outras centrais eólicas estão, respectivamente, na Praia do Morgado e Volta do Rio, ambas no município de Acaraú, a 250 quilômetros de Fortaleza. A primeira tem capacidade instalada de geração de 28,8 MW e a outra de 42 MW. Juntos os três parques eólicos vão consumir aportes de R$ 550 milhões.
Mattos ressaltou que a energia eólica é a que mais cresce no mundo. A taxa anual de evolução está próxima de 30% nos últimos 10 anos. No final de 1996, a capacidade mundial instalada era de 6,1 mil MW. Em 2000, superou 16,7 mil. A Alemanha responde pela maior parte da produção mundial, com mais de 6 mil MW, seguida pelos Estados Unidos, Espanha e Dinamarca.
No Brasil, no ano passado, a capacidade de geração da matriz registrou alta de 77,7% em relação ao exercício anterior. Dessa forma, o país passou a ter capacidade instalada de 660 MW, enquanto que em 2008 era de 400 MW. Dados do Conselho Global de Energia Eólica (Global Wind Energy Council - GWEC) mostram que esse tipo de energia teve expansão mais do que o dobro da média mundial de 2009, que apresentou elevação de 31%. A estimativa é que até 2012 a capacidade brasileira chegue a 3 mil MW.
Apesar do crescimento no país, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia, a participação dessa fonte na matriz elétrica brasileira foi de apenas 0,2% do total de energia gerada no Brasil em 2009.
Durante o lançamento do atlas, mês passado, o presidente da Cemig informou que o investimento para o estudo, que levou cerca de dois anos, foi da ordem de R$ 2 milhões. Ele também destacou que, no momento, a companhia está prospectando, em parceria com a EDP, de Portugal, mas não poderia falar em prazos.
Diversificação - Além dos especialistas em energia, o secretário de Desenvolvimento Econômico (Sede), Sérgio Barroso, ressaltou a importância das matrizes energéticas diversificadas para o crescimento do Estado. "Se Minas Gerais crescer a uma taxa de, por exemplo, 7% ao ano, vai dobrar a necessidade energética do Estado em 10 anos. O fato é que só há desenvolvimento econômico com energia suficiente. Assim, temos que andar rápido e com eficiência", afirmou.
Além do Atlas Eólico de Minas Gerais, a Cemig pretende lançar o mapeamento solar do Estado até o final do ano. "Espero que no encontro do próximo ano possamos falar sobre os dados do atlas da energia solar, que é outra matriz importante. Afinal, não é possível fazer grandes usinas hidrelétricas no Estado", observou.
Para o presidente da Associação Comercial de Minas, Charles Lotfi, o seminário, que começou ontem e vai até hoje, tem como objetivo estimular os investimentos nas energias renováveis. "Acredito que os presentes sairão daqui com a mente fervilhando de planos", disse. Ele lembrou as palavras do governador Antonio Anastasia sobre o potencial eólico do Estado, que é "uma riqueza incomensurável em nossas mãos".