Portugal Digital
17 de maio de 2010
Da Redação
Brasília - Em entrevista ao programa “É Notícia”, da brasileira Rede TV, transmitida no início da madrugada desta segunda-feira (17), o primeiro-ministro português, José Sócrates, descreve o presidente do Brasil como líder de projeção mundial, indicado para assumir o cargo de secretário-geral das Nações Unidas, posiciona-se como político de esquerda e defensor do mercado, e diz que quer fazer de Portugal um país “competitivo e moderno”, com “justiça social e igualdade”.
"Sou um produto da classe média portuguesa", diz Sócrates, ao falar sobre as suas origens, sobre o pai arquiteto, sobre a sua adolescência e a opção pelo curso de engenharia, admitindo que se fosse hoje talvez preferisse fazer um curso na área de humanísticas.
Questionado sobre a entrada na política, o primeiro-ministro afirma ser "um produto do 25 de Abril ( 1974, a Revolução dos Cravos)", refere o início da sua militância no Partido Socialista, na Covilhã, e, dois anos depois, a sua chegada ao Parlamento.
Num outro momento da entrevista feita pelo jornalista Kennedy Alencar, do jornal Folha de São Paulo, Sócrates define-se como “um socialista que sempre acreditou que a melhor resposta ao crescimento econômico é o mercado”.
A propósito do seu relacionamento com a imprensa e do "caso TVI", o primeiro-ministro diz que o telejornal da TVI era alinhado para o atacar "pessoalmente", visando impedi-lo de ganhar as eleições.
Sobre as relações entre os dois países, Sócrates refere que não se pode entender Portugal sem conhecer o Brasil e diz que “cada vez que o Brasil sobe de posição no concerto das nações, no quadro internacional, Portugal vai atrás”. "A comunidade brasileira tem dado muito ao nosso país (...) vieram dar muita alegria ao nosso país", afirma o primeiro-ministro, que minimiza a existência de preconceitos em relação aos imigantes brasileiros, dando como exemplo o fato de ter dois brasileiros a trabalhar no seu gabinete. "Portugal tem uma ambição cosmopolita (...), que acolhe bem todas as culturas", adianta.
As relações econômicas e comerciais estiveram também em foco na entrevista Uma área que deverá estar no centro das conversações que manterá com Lula, quarta-feira, em Lisboa. Uma agenda "muito voltada para as relações econômicas". Sócrates quer que as empresas brasileiras invistam mais em Portugal e diz estar otimista quanto à concretização de um acordo entre a União Europeia e o Mercosul. "Mais tarde ou mais cedo nós teremos resolvido o acordo comercial".
Na entrevista, que durou 63 minutos, Sócrates enfatiza a importância da defesa do euro, a moeda única europeia, e atribui as dificuldades que o país enfrenta ao recente ataque especulativo. Nas últimas semanas, "a desconfiança dos mercados criou uma nova situação", o que obrigou à adoção de medidas de austeridade, com cortes dos gastos sociais e aumento de impostos. "Temos de controlar os nossos gastos públicos de modo a oferecer garantias a quem nos financia (...) a isso se chama ser responsável e rigoroso".
“O mais importante para a esquerda é que seja realista”, diz. “Toda aquela esquerda que achou que devia comportar-se apenas com retórica e com idealismo fracassou. Isso não serviu a ninguém muito menos para os que precisam da esquerda para melhorarem suas condições de vida”.
"Nós não precisamos de falar com o FMI (...) a nossa dívida está garantida", afirma quando o entrevistador pergunta se Portugal irá recorrer ao FMI, à semelhança da Grécia.
"Grande admiração"
O primeiro-ministro luso diz ser "grande amigo" do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, por quem afirma ter “grande admiração”. “Não imagina a quantidade de líderes políticos europeus que acham que só se resolvem problemas com o Brasil se eu telefonar ao presidente Lula”.
Sócrates considera que Lula “fez um trabalho absolutamente extraordinário”. “Não sei se os brasileiros têm consciência disso, do trabalho que o presidente fez para a afirmação do Brasil”.
“O presidente Lula mostrou ao mundo que a esquerda no Brasil pode governar e pode governar com responsabilidade”, diz.
“A esquerda latino-americana fica a dever ao Lula essa visão política que ele teve de aplicar um programa que visava naturalmente combater as injustiças, combater a pobreza, mas um programa moderado”, afirma o primeiro-ministro português.
Sobre o que diferencia, hoje, esquerda e direita, o governante português afirma que é o “encaminhamento da igualdade”. “Muitos dos que desvalorizavam a ação do Estado só se lembraram do Estado nesta última crise, em que foi preciso ação do Estado para conter aquilo que foi a desregulação completa dos mercados financeiros”.
O primeiro-ministro de Portugal surge também como um dos arquitetos de eventual candidatura de Lula ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas.
"A esquerda europeia tem grande admiração pelo presidente Lula e nós gostaríamos que se mantivesse na política”, diz. Levar Lula à liderança das Nações Unidas é um objetivo a que Sócrates se propõe, contando para tal tarefa com o apoio do chefe do governo espanhol, José Luís Zapatero, e com o primeiro-ministro grego Papandreou, todos da família socialista.
Um assunto que irá discutir no final de maio quando se encontrar com eles, no Rio de Janeiro, e com Lula, por ocasião da conferência mundial da Aliança das Civilizações, uma entidade das Nações Unidas liderada pelo ex-presidente português Jorge Sampaio, também do Partido Socialista.
Lula “é jovem demais para se retirar da política". "Tenho a certeza de que ele desempenharia muito bem qualquer cargo internacional”. “Lula tem um capital político tão importante que seria grande desperdício não o aproveitar”, diz Sócrates. "Não deixarei de insistir com ele para que não se retire da política ativa ao nível mundial”.
Fonte: PORTUGAL DIGITAL