Em Novembro de 2007, no Rio de Janeiro, as Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil manifestaram-se publicamente pelo fortalecimento do G20 e pela busca de um diálogo econômico mais efetivo entre os países de língua oficial portuguesa ou, nas palavras do saudoso e então presidente da Câmara Brasil Portugal no Ceará, Armando Ferreira, também pelo estabelecimento de um novo G8, formado pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa – CPLP.
Se é vital afirmar uma nova ordem econômica concertada pelas 20 principais economias industriais do mundo – aí incluído o Brasil –, é preciso também explorar a força da língua portuguesa falada por cerca de 240 milhões de pessoas e tirar proveito efetivo dessa vantagem, na medida em que todos os países da CPLP têm uma situação privilegiada na geografia global e alguns, como Angola, Moçambique e Cabo Verde, passam por um relevante processo de vitalização das suas economias.
Nesse ambiente de cooperação internacional onde ainda há muito por fazer, as Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil juntam-se às demais congêneres nos oito países da CPLP e reforçam o debate sobre o que deve ser feito para impulsionar os negócios em língua portuguesa.
Não se justifica que as trocas comerciais entre os países da CPLP ainda sejam pouco expressivas se comparadas ao comércio que esses países fazem com o resto do mundo. Para se ter uma ideia, o comércio anual intra CPLP é de aproximadamente 13 mil milhões de dólares, enquanto o total das trocas comerciais destes mesmos países com o mundo é superior a 550 mil milhões de dólares. Só a China, transaciona com a CPLP algo em torno de 77 mil milhões de dólares ao ano.
É preciso entender, por um lado, que o comércio dentro da CPLP pode ser muito mais intenso e, por outro, que os oito países não estão a aproveitar os seus potenciais de exportação para os parceiros de língua portuguesa.
O comércio bilateral entre o Brasil e Portugal é um exemplo dessa atrofia. Conforme estudo realizado há alguns anos pela Câmara Portuguesa em São Paulo com o apoio do Conselho que ora presido, foi constatado que Portugal tem um potencial de exportações anuais para o Brasil de aproximadamente oito mil milhões de dólares de produtos que este último compra no estrangeiro, mas as empresas portuguesas só exportam para o Brasil menos de 400 milhões. Embora esse estudo possa estar defasado, os dados atualizados que serão divulgados em Setembro, em Fortaleza, durante o V Encontro Empresarial de Negócios na Língua Portuguesa, não serão muito diferentes e demonstram que o mercado brasileiro ainda é uma janela de oportunidades que as empresas exportadoras portuguesas ignoram ou desperdiçam.
Não parece razoável que países que falam a mesma língua e que estão relativamente próximos e ligados pelo Oceano Atlântico ainda resistem trocas comerciais incipientes. Nesse contexto, certamente as deficiências no transporte marítimo e logística portuária são pontos relevantes, como apontou um recente estudo encomendado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil à Funcex. Não se justifica, por exemplo, que o Nordeste do Brasil não disponha de nenhuma linha marítima regular direta com os países africanos e que, por isso, as cargas que saem do Ceará para Cabo Verde possam demorar até 50 dias para chegarem ao importador devido a sucessivos transbordos.
É preciso fazer no comércio internacional na CPLP o que Portugal fez quando, numa acção concertada, decidiu promover o investimento decreto no Brasil, o qual, nos últimos dez anos, e com a participação ativa das Câmaras Portuguesas de Comércio neste país, já somou stocks de mais de 11 mil milhões de dólares em sectores como a energia, estradas, telecomunicações, turismo e outros.
Neste contexto, as Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil estão cientes do seu papel como agentes da diplomacia econômica, que transcende a ação de governos, porque mantêm vínculos estratégicos e transversais de norte a sul do Brasil, conseguindo resultados onde a diplomacia de Estado, por ser uma instância formal, pode ter dificuldades em alcançar.
Cientes do papel que o Brasil e Portugal têm como vetores de desenvolvimento nesse universo linguístico de forte repercussão econômica, face à redução dos custos de transação comuns no mercado internacional normalmente marcado pela diversidade da língua e da cultura, as Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil assumiram o desafio de promover o V Encontro Empresarial de Negócios na Língua Portuguesa (www.negociosnalinguaportuguesa.com) conjuntamente com o Conselho Empresarial da CPLP, a Confederação Nacional da Indústria e o Governo do Estado do Ceará.
Nossa expectativa é reunir em Fortaleza, entre os dias 28 e 29 de Setembro, cerca de mil empresários, dos quais estimamos que pelo menos 300 sejam provenientes do estrangeiro. A decisão de se fazer o evento no formato atual, envolvendo empresários de todos os países da CPLP, é um imperativo histórico e econômico, na medida em que é vital reproduzir no comércio o que já ocorre no investimento direto estrangeiro, como destacamos acima.
O V Encontro Empresarial de Negócios na Língua Portuguesa irá desenvolver uma abordagem sistematizada (fórum, ronda de negócios e feira) sobre cinco temas econômicos relevantes para os países envolvidos e para as comunidades de língua portuguesa no estrangeiro, nomeadamente, o turismo, infraestruturas, recursos naturais, agro-negócio e inovação tecnológica.
Destaque também para a realização, durante o Encontro Empresarial, da reunião da Direção do Conselho Empresarial da CPLP, a primeira após a entidade ter apresentado ao Conselho de Ministros dos Negócios Estrangeiros da CPLP, no último dia 20 de Julho na Cidade da Praia, em Cabo Verde, a criação de uma Confederação Empresarial da CPLP, o que certamente contribuirá decisivamente para o aumento dos negócios entre os países de língua portuguesa.
Várias empresas de expressão lusófona já apoiam o evento, além das principais entidades empresariais dos países da CPLP, a exemplo da Confederação Nacional da Indústria – CNI (Brasil), que integra o evento na qualidade de co-organizadores, e da Associação Industrial de Portugal – AIP. Também participam no evento diversas câmaras de comércio bilaterais lusófonas, convidadas a discutir mecanismos de cooperação entre elas.
Cabe salientar a escolha do estado do Ceará para sede do V Encontro Empresarial de Negócios na Língua Portuguesa, face à posição desse Estado como um importante centro de discussão lusófona e às sinergias que o mesmo vem desenvolvendo no âmbito da CPLP, quer no passado próximo, tendo reunido em Junho de 2003 o II Fórum Empresarial da CPLP e o Fórum Brasil-África, quer no presente, com a ampliação dos negócios com Portugal e Cabo Verde e, mais recentemente, com a definição do estabelecimento no Ceará da Universidade Luso-Afro-Brasileira – UNILAB. Além disso, o Ceará é um dos Estados que mais se desenvolveu na última década no Brasil. A sua população é de quase oito milhões de habitantes e a sua capital, Fortaleza, é a quarta maior cidade brasileira.
A certeza de que este evento será uma excelente oportunidade para a celebração de bons negócios firma-se na convicção de que uma nova ordem econômica se avizinha, na qual os atores de língua portuguesa podem assumir um papel de destaque na economia mundial por conta do expressivo universo de falantes, pelo status que o Brasil representa enquanto liderança econômica global, somado ainda ao papel português no diálogo europeu e, por fim, pelo que hoje são os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa na África (PALOP), quanto à vitalidade de suas economias, recentes experiências democráticas e esfera de influência no continente.