Um assunto que o Brasil considera "preocupante", como disse o ministro brasileiro da Defesa aos seus pares da CPLP
Alfredo Prado
Brasília – A expansão da Nato no Atlântico Sul, com a realização de “parcerias” com países africanos e sul-americanos, como o Brasil, foi defendida, em Brasília, pelo ministro português da Defesa, Augusto Santos Silva, que participou na 12. reunião dos ministro das Defesa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Em entrevista ao Portugal Digital e ao África 21 Digital, Augusto Santos Silva falou sobre a reunião da Nato, a realizar na próxima semana, em Lisboa, e sobre projeto de expansão de parcerias da Organização do Tratado do Atlântico Norte para o Atlântico Sul. Um projecto que o Brasil vê, no mínimo, com grande desconfiança.
A realização de “parcerias” com países africanos e sul-americanos seria, na opinião do ministro português , uma extensão natural da Nato (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que reúne 28 países do Hemisfério Norte.
A presença da Nato em várias regiões do mundo, como as águas da Somália ou no Afeganistão, em operações de manutenção de paz, na qualidade de organização de defesa colectiva, e a existência de “parcerias” com blocos como a União Europeia ou a Rússia, fazem parte dos argumentos apresentados por Augusto Santos Silva em defesa do alargamento das acções de cooperação estratégica com outros países do Hemisfério Sul.
“Portugal entende que essas parcerias devem ser estendidas a países de África”, disse o ministro. “Não é uma influência abusiva, não é uma extensão de influência”, enfatizou. Tais parcerias, de acordo com Santos Silva, deveriam incluir o Brasil. “O Brasil é uma das potências com que se deve contar”, afirmou.
O respeito pela Carta das Nações Unidas, a promoção da estabilidade e da segurança deverão presidir ao novo conceito estratégico a discutir na cimeira da Nato que se realiza em Lisboa na próxima semana.
“Com tempo, gradualismo e confiança será possível desenvolver um diálogo regular, na área da defesa, entre a OTAN e outros parceiros, incluindo a União Africana, estando Portugal disponível para dar o seu contributo”, disse o ministro na reunião da CPLP.
Augusto Santos Silva manifestou também a convicção de que os “esclarecimentos” que deu durante a reunião ministerial sobre o novo conceito estratégico da Nato terão “clarificado dúvidas”, designadamente do ministro brasileiro da Defesa, Nelson Jobim
Um assunto que o Brasil parece ver com desconfiança, apesar dos “esclarecimentos”. Nelson Jobim reiterou, na reunião, as preocupações de Brasília relativamente à expansão da Nato para o Atlântico Sul.
O ministro brasileiro manifestou “a preocupação com a delimitação da extensão da “Área” no Atlântico Sul, uma vez que a não delimitação das plataformas continentais dos parceiros africanos poderia tornar legalmente factível que outros Estados obtenham direitos de exploração comercial dos recursos situados nessa faixa, sem dúvida já atraídos por seu imenso potencial”.
De acordo com Jobim, “a preocupação se justifica pelo surgimento, no Atlântico Norte, de novos conceitos como o de “Bacia do Atlântico”, “compartilhamento de soberanias”, além de ações políticas concretas como a Iniciativa para o Atlântico Sul e o novo conceito estratégico da Organização do Atlântico Norte”.
O ministro da Defesa do Brasil, que tem desempenhado importante papel no desenvolvimento do projecto estratégico brasileiro de se assumir como potência internacional, enfatizou, dirigindo-se aos seus colegas lusófonos, que “o Atlântico Sul possui características particulares, dentre as quais se destaca ser a área livre de armas nucleares”, o que, disse, mostra “a importância de se preservar o actual ambiente de paz e estabilidade, sem a interferência de potências exógenas à região”.
O “novo conceito” de expansão da Nato, que, como admitiu o ministro Augusto Santos Silva, nem é assim tão novo, já que o alargamento para o Atlântico Sul foi tema de discussão nos anos da “guerra fria”, parece não entusiasmar Brasília.
Nelson Jobim foi claro ao enfatizar junto aos seus pares da CPLP “a importância que o Brasil confere à Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS)”, iniciativa de cooperação Sul-Sul que engloba todos os Estados ribeirinhos do Atlântico Meridional, “no sentido de preservação de um ambiente livre de tensões geopolíticas nessa porção do globo”.
Fonte: PORTUGAL DIGITAL